Despertencendo


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Se por um lado eu moro aqui há 15 anos, aqui nunca vai ser a minha casa. Nunca aprendi a gostar de baseball ou futebol americano. Futebol para mim, é e sempre será o do Corinthians. Mas adotei o Thanksgiving numa boa. Um dia em que você convida os amigos “órfãos”, passa o dia na cozinha, assando perus, fazendo tortas, bebendo cerveja e jogando conversa fora sem o consumismo do Natal.

Ao mesmo tempo que às vezes sinto falta do Brasil, sei que não há mais como voltar. Ao longo desse ano descobri que a grande maioria das pessoas que eu chamava de amigos no Brasil são na verdade conhecidos, gente com quem você toma uma cerveja e bate um papo, mas de quem não deve esperar nada mais. Enquanto isso, os meus amigos Americanos (que os Brasileiros gostam de chamar de “frios”), esses sim estavam lá quando eu precisei, mesmo os que moram longe.

Estudei e trabalhei no Japão, na Inglaterra e no Canadá. Saí do Brasil com 22 anos. Não conhecia ninguém nesse país quando cheguei a Boston no dia 26 e Agosto de 1992. Hoje eu penso em Inglês e o Português só é usado quando encontro alguns dos poucos amigos Brasileiros aqui, falo com os meus pais e escrevo neste blog. No Brasil, só a família e alguns amigos de verdade que se contam com os dedos de uma mão.

Estou acostumado a nunca fazer parte de nada. No Brasil, vi logo que não tinha paciência para pagar a cervejinha do guarda, a gorjeta do flanelinha e fazer parte das panelas de que é necessário participar para se chegar a algum lugar profissionalmente. E muito menos lidar com a comédia do absurdo que é ser Brasileiro fazendo piadinhas. Por isso vim para cá. Com todos os defeitos, o conservadorismo, a jequice, a falta de interesse pelo resto do mundo, ao menos por aqui existe alguma meritocracia. E algum espírito de justiça, se não para os outros, ao menos internamente.

Mas às vezes cansa não ter raízes em lugar nenhum, ficar flutuando no vácuo, sem ligações profundas com lugar algum. Por causa de toda a confusão deste ano, não posso sair do país. E vou ter que passar as festas de fim de ano por aqui mesmo, a primeira vez desde 1996, quando fiz o trajeto de Sydney a Perth, na Austrália, surfando e acampando na costa Sul. Acho que vou ignorar as festas de fim de ano solenemente desta vez.

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3 comments so far

  1. ronas on

    Cara, tinha uma amiga em Londres que dizia que o tempo de adaptação à volta ao lar é metade do tempo que se passou fora. Ela também estava morando no exterior havia 15 anos.
    Eu acho que depende de uma série de coisas, mas principalmente de você mesmo. Eu acho que ser estrangeiro é um estado de espírito. Dei minhas zanzadas por aí, seguindo o instinto e fugindo de mulheres [ou vice-versa], mas sempre fui estrangeiro dentro do meu próprio estrangeiro. Dá pra entender.
    Eu sei lá, concordo com montes de coisas que você diz do Brasil e suas “regras” de sobrevivência, tem coisas aqui realmente inacreditáveis [a política, a corrupção em geral, o descaso das autoridades, páro por aqui], mas também acho, fazendo às vezes de advogado do diabo, que se está onde pode-se estar, como é permitido estar.
    A vida no estrangeiro pode ser bem confortável, o descomprometimento com o meio, que permite escapar quando convir, traz como revés a tal “frieza” [como se os brasileiros fossem sempre quentinhos….], que na verdade é nossa própria frieza em relação ao meio, seja ele Michigan ou Ubatuba.
    Papo besta, né? Parece que baixou um Paulo Coelho de botequim, e sem a grana.
    Bem amigo, guenta firme, resolve aí as paradas, e venha quando der tomar aquela, falar da vida e ….. nada mais. take care

  2. Livia on

    Querido,
    já estou aqui lacrimejando. Grávida é foda…
    Após 9 anos morando nos EUA, entre idas e vindas de volta ao Rio, minha temporada em São Paulo me mostrou que sou mais estrangeira aqui do que em Berkeley. E, talvez, se voltarmos pro Rio (o q queremos muito), sejamos igualmente estrangeiros.
    Sinto saudades todos os dias. E das coisas mais bizarras…
    Mas, sigamos em frente e deixo q o vento me leve. Próximo destino: 2008 em paris? 2009 em Boston? 2013 no Rio? veremos…
    beijos (esses sim, nada melhor do q beijos cariocas, pq lá não economizamos)

  3. renas - não o ronas :) on

    Chicão,

    Como diria um velho mestle:

    “Morar no Brasil é uma merda, mas é legal. Morar no exterior é legal mas é uma merda”

    Como ex-expatriado eu assino embaixo esse salmo 🙂

    []s


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