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Es Nosotros en la fita…

A Jenn voltou de três semanas se saracoteando pela Europa enquanto eu fiquei aqui mesmo limpando o cocô da gata dela, que teve diarréia. Se isso não é prova de amor, não sei o que é.

Uma das cidades que ela visitou foi Barcelona. Barcelona é na minha opinião o nexo do Universo. Um lugar onde você bebe muito vinho, fuma muitos cigarros, come muito jamón serrano (que depois que eu vi aquele filme Jamón, Jamón, continuo comendo, mas meio cabreiro) e fica vendo aquelas casas de massinha do Gaudí. Sem falar que o Catalão é na verdade o Português falado por Portugueses que nasceram na Catalunha, então tá tudo em casa. Um lugar onde o povo sabe viver, onde trabalha-se o necessário e diverte-se até ficar triste. San Francisco é uma cidade supimpa, mas eu trocava San Francisco por Barcelona num piscar de olhos.

E não é que a Jenn foi lá e ficou com uma amiga dela, nativa de Barcelona, que tinha estudado em San Francisco e está doida para dar o fora de lá e voltar para a Califórnia?

Moral da história: nós queremos o que não temos. E o que nós temos, nós não queremos.

Ô filosofiazinha sub-botequim…

Eu quero o que ela está bebendo.

Coachella coachou

Coachella. Uns amigos me convidaram para ir, ingresso “de grátis” se eu fosse ajudar a montar umas instalações e soldar umas esculturas no lugar, como a Steam Punk Tree House aí em cima, mas sem chance, menos por não poder tirar férias agora e mais porque Coachella, a terra da garrafinha de água a 5 dólares, é uma farsa. “Alternativo” é o Raul Gil. Tenha a santa paciência.

Senão, vejamos: Jack Johnson. A respeito deste rapaz, tenho uma historinha. Outro dia desses, estava num café num desses subúrbios modorrentos de classe alta do Vale do Silício, quando ouvi duas donas de casa, exemplos acabados da Perua Calvinista, o equivalente Americano do original nacional, falando do cidadão:

-“Aquele Jack Johnson é muito legal, as minhas filhas adoram. E além do mais, ele é Havaiano, mas é branco!”

Pois é. Quem mais? Ah, Roger Waters. MIA. Spiritualized. Bonde do Rolê.

Socuerro. Ainda bem que são pelo menos 700 Km me separando disso aí.

Cenas de San Francisco

Cena I

Hoje de manhã, andando pela Page Street, no Lower Haight, vindo da casa da Jenn, rumo ao trabalho, passo na frente do pátio da escola municipal, cujos estudantes são em sua maioria de baixa renda e moram nos projects (conjuntos habitacionais) da área. Estão, como fazem todos os dias, recitando o Pledge of Allegiance e hasteando a bandeira. Apesar da guerra, apesar da desgraça de 8 anos de Republicanos levando este país para o buraco, a cena me traz uma vaga satisfação, uma coisa piegas mesmo, como se aquelas crianças ainda acreditassem nas idéias que formaram esse país.

Ando mais um quarteirão e descubro que, mais uma vez, arrombaram o meu carro. A terceira vez neste ano. Dessa vez roubaram o meu GPS, aquele em que eu passei horas programando as coordenadas de vários pontos de interesse em vários desertos por aí.

Fico me perguntando se não foi um daqueles moleques.


Cena II

Cair da noite no Financial District, estou estacionando o carro na Washington St. para ir para uma aula. Enquanto estaciono, um homem que caminha abraçado a duas mulheres pára ao lado do carro em frente ao meu. Ele abre a porta do carro e antes de entrar, se despede das duas, vestidas como middle managers de alguma instituição financeira, com seus laptops e tailleurs.

Ele pega a primeira e tasca-lhe um beijo daqueles do tipo “o avião está caindo e só temos mais dois minutos de vida”.

E faz a mesma coisa com a segunda.

Entra no carro e vai embora, enquanto as duas dão tchauzinho.

E eu vou para a minha aula.

Vida besta

Quase botando a dot-com de pé. Grande festa em San Francisco para comemorar.
Grandes projetos para um novo evento no deserto.

Vários whiskeys com os amigos antes do show.

Goldfrapp no Fillmore.  Goldfrapp ao vivo é bem, bem bom.

Vários whiskeys com os amigos depois do show.
Chegando em casa às 6 da manhã, banho e toca para o trabalho. Ah, foda-se o trabalho.

É  Quarta-Feira.

Conflito de Gerações

Eu, tentando explicar Space Invaders para um moleque de 16 anos:

“Back in my day, we had this game. There were these thingies, coming down on you, moving left and right.. and the thingies would rain these little dots on you… and you moved left and right trying to avoid the little dots… and then you shot little dots at the thingies… and if you hit a thingie, it disappeared!! it was so much fun!! Then we went skateboarding, we had this thing that we did called a “boneless”. Have you heard of Christian Hosoi? No?? Caballero?”

Em cerca de 3 minutos de conversa, eu envelheci uns 75 anos.

Quem deu pinga para o esquilo?

Cadê a Tocha?

Foi cômico. Um monte de gente contra, um monte de gente a favor (?), polícia, televisão, malucos de todas as estirpes como sói acontecer nestes eventos, todo mundo querendo a sua casquinha da Tocha Olímpica.

E, finalmente, começou a corrida da Tocha. Mas não tinha andado 50 metros e, tal qual o Leão da Montanha, a Tocha fez uma saída pela esquerda e foi na direção oposta ao percurso original, para o centro da cidade pela Van Ness em vez do Embarcadero às margens da Baía. E aí tome um monte de gente, a pé, de bicicleta, skate, táxi, sair procurando a tal da Tocha pela cidade como se fosse a Corrida Maluca.

Sou só eu ou alguém mais notou a ironia em se fazer um evento público no qual a maior preocupação é despistar o público? A prefeitura de San Francisco tratou a Tocha como uma tremenda batata quente, cumpriu as formalidades que tinha de cumprir e fim. Até a cerimônia de encerramento foi cancelada. Tudo, é claro , “por razões de segurança pública”…

O interessante que eu não tinha previsto, é que houve um grande contingente pró-China, tão grande quanto o dos manifestantes. Existem muitos imigrantes Chineses recentes aqui, em sua maioria trabalhando como cientistas e engenheiros no Vale do Silício. Para eles, o Tibet é assunto interno e ninguém tem nada com isso, mais ou menos como nós Brasileiros quando o assunto é crianças abandonadas ou desmatamento na Amazônia. Dá para entender, mas não para concordar.

O Frankenstein Jones (sempre ele) foi lá e tirou umas fotos.

Começou…

A se julgar pelo que aconteceu em Istambul, Londres e Paris, já viu, né? Está armado o circo para amanhã.
Ontem uns malucos escalaram os cabos da ponte Golden Gate para colocar faixas contra a tocha olímpica.
A Jenn, que está em Paris, ativista que ela é, deve ter ido dar a sua vaiadinha no Faubourg Saint-Honoré.
Amanhã é a minha vez. Mas já estão falando em mudar o percurso da tocha sem avisar o público. Porque não colocar a tocha num táxi e dar um rolê rápido na cidade logo de uma vez então?

Encontros com Homens Notáveis

Era 1995, quando eu estava acabando o meu mestrado. Resolvi fazer a aula de linguística do Noam Chomsky, que é um senhor palestrista. Aliás, as palestras dele tinham um quê de Astros do Ringue ou Programa do Ratinho (fica à escolha do leitor), uma vez que sempre tinha algum fã ardoroso de Israel ou economista de Harvard na platéia para se levantar e largar o verbo no melhor estilo choro e ranger de dentes, ou seja, diversão garantida, pois o homem não levava desaforo para casa.

Mas as aulas de linguística eram bem menos polêmicas na época; hoje deve ser diferente, uma vez que de lá para cá um professor fazendo pesquisa com uma tribo na Amazônia descobriu uma linguagem que contraria completamente a teoria do Chomsky, mas isso é outra história. Tem uma reportagem muito interessante numa New Yorker de mil novecentos e antigamente sobre o assunto.

O problema na aula do Chomsky era que tinha um mundo de gente querendo fazer a matéria. Centenas de alunos. Daí no primeiro dia de aula ele avisou que não poderia aceitar toda aquela turba na sala de aula e que todo mundo ia ter que entregar uma redação explicando porque queria fazer a matéria. Ele leria todas e decidiria quem iria fazer a matéria.

Foi um Deus nos acuda. Alguns colegas meus que estavam fazendo a matéria juntos saíram a pesquisar a história inteira da linguística, a Forma Normal de Chomksy e suas aplicações na inteligência artificial, a relação entre o “Mentalês”, a língua primordial com a qual todos nós já nascemos de acordo com a teoria Chomskyana, e a teoria da “Sociedade da Mente” de Marvin Minsky. Escreveram verdadeiros tratados.

Eu escrevi um parágrafo de 3 linhas dizendo que adoraria fazer a matéria porque só me faltava um crédito para poder concluir o meu mestrado e que senão eu teria de esperar mais um semestre para me formar.

Os meus amigos foram ejetados da matéria mas eu fiquei. Valeu, Chomsky camarada!