Uno, nessuno e centomila


Era um excelente dia para ir ao banco. Entrei na agência respirando fundo o ar de fornicação pecuniária, uma discreta bacanal no templo de Mamon.

Mostrei a minha identidade, um ritual criado não para provar que eu era aquele que eu dizia que era, mas ao contrário, para mostrar que eu não era alguém que não era eu.  Há uma diferença.

A bancária olhou para a imagem daquele espectro de anos passados, para a minha encarnação em frente ao guichê, uma segunda vez para o retângulo colorido de plástico e de volta para mim. E, de trás dos seus dentes escurecidos veio a pergunta:

– Mas o que aconteceu?

Eu tive um sentimento passageiro de gratidão. Ela queria saber. Mas agora eu me dava conta de que eu também queria.

– O que aconteceu? Uma matilha de pequenos desapontamentos e indignidades cotidianas, feitos heróicos sem testemunhas, chuva e seca, vinho e vômito. Os Outros. É o que aconteceu.

Ela me olhou, compreensiva. Aqueles olhos bovinos, maternais. Eu vi a brecha.

– Será que dá para você cancelar a multa do saldo negativo?

Não, não dava.

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