Archive for the ‘Black Rock’ Category

Cuma?

Aconteceu antes do Burning Man começar, muito perigoso fazer com 50,000 pessoas por perto.
O que acontece quando você junta um Trebuchet, um piano em chamas e os malucos do Black Rock City DPW?


Isso aqui:

Desert Sessions

O lugar onde eu durmo e recebo as contas fica em San Francisco.


Mas a minha casa fica no deserto. Ja é assim há muito tempo. Já visitei vários, eu coleciono desertos como um negociante Berbere coleciona pérolas.

Os nomes rolam fácil da língua: Sonora, Mojave, Death Valley, Escalante, Grande Deserto de Areia da Austrália. Ainda faltam o Atacama, Kalahari, Kara Kum e Gobi, daí posso morrer feliz.

Mas o meu preferido ainda é o deserto de Black Rock em Nevada. 3.500 km quadrados de desolação e silêncio. Nem insetos você lá de tão morto que o lugar é. A maior parte do deserto é um leito seco de um lago pre-histórico, de 80 km de comprimento e até 50 km de largura. Completamente plano e cercado de montanhas de até 1500 m de altura a uma altitude de 2000 m. Na parte mais acessível do deserto recordes mundiais de velocidade terrestre foram quebrados. Já a parte mais distante é um dos lugares mais remotos e menos frequentados da América do Norte. O meu amigo Dennis descreveu a sua experiência nos confins do Black Rock Desert assim:

“Eu voltaria lá. Quer dizer, voltaria lá com dois jipes 4×4, guincho, ferramentas para consertar o que quebrar, água e comida para duas semanas, rádio, GPS, foguetes de sinalização, correntes, tábuas de madeira para o atolamento que vai acontecer com certeza e 2 estepes por carro. Ah, e uma arma apontada para a minha cabeça.”

Não é brincadeira. Todo ano morre alguém nesse deserto, você vai muito fundo no deserto, o seu carro quebra ou atola na areia, você não trouxe água suficiente, caminhar 50 km não é uma opção a uma temperatura de 45 graus à sombra, já viu… Eu mesmo já passei um perrengue desses ano passado com o meu amigo Bryan aka Fko.

Mas é um dos lugares mais lindos que eu conheço. Você sobe a Sierra Nevada até 3000 metros de altura, cruza o Donner Pass e desce até a Grande Bacia de Nevada, Daí vira para o Norte e entra na reserva dos índios Paiutes, em direção ao Oregon. Na entrada da reserva eu já começo a sentir a eletricidade, a antecipação do deserto. Duas horas depois chegamos ao povoado de Gerlach, na beira do deserto. Mais meia hora no asfalto e chegamos ao 12 Mile, o melhor ponto de acesso ao deserto. Dessa vez é noite escura, 3 da manhã sem lua. Abrimos a tradicional cerveja comemorativa e entramos no deserto. De agora em diante não há mais estrada. É na base do olhômetro mesmo.

É claro que em dois minutos nós nos perdemos. Uma olhada na bússola mostra que nós estamos indo na direção oposta. Passamos a navegar com a bússola e o odômetro, com o GPS servindo de segunda opinião. Guiar no deserto é como navegar no mar, não há pontos de referência. E uma das coisas mais difíceis é achar os pontos de acesso. Eles ficam em meio a dunas e levou vários anos até eu memorizar onde eles ficam, usando os picos das montanhas como referência.

O deserto exige auto-suficiência mas em troca te dá liberdade. Dá para fazer coisas que não dá para fazer na cidade, como por exemplo, juntar um cabo de aço com arame com palha de aço, acender e fazer isso aqui:

Em 5 semanas retorno ao deserto como parte da equipe que está construindo o Mechabolic, desta vez por 10 dias para o Burning Man. A minha catarse anual, mistério Dionisíaco . Não vejo a hora.


Vida Mansa

Foto: Frankenstein Jones.

Assim é a vida no deserto. Sombra e cerveja gelada. E a ocasional roubada sozinho, num calor senegalesco, perdido e mal pago num Jeep com as rodas afundadas na areia, é claro.

Mais a seguir.